73-JESUS NO LIVRO APÓCRIFO DE ENOQUE

17/06/2013 00:16

 

A caminhada de Enoque

Uma das pessoas que andou mais próximas de Jesus em vida foi o profeta Enoque. Não estranhe o fato de que este profeta viveu num tempo muito antes da história de Jesus em carne na Terra, pois lembre-se que o nosso Messias é o Filho eterno de Deus que criou o mundo (João 1:1). Enoque é pouco conhecido e o que sabemos da sua vida é uma das coisas mais impactantes da Bíblia.

O grau de intimidade que Enoque alcançou é tão interessante pelo fato de que ele nãomorreu ainda. O Senhor o tomou vivo. Em outras palavras, a sua comunhão com Deus dada na Terra ainda está em continuidade no Céu. Talvez isso tenha ocorrido com outros em tempos recentes, mas não há menção escrita de ninguém no Novo Testamento de tal fato, exceto é claro o do próprio Jesus. O grande arrebatamento da Igreja ou Noiva é uma promessa de Jesus que está para se cumprir (1 Tessalonicences 4:16, João 5:29, 1 Coríntios 15:52).

“E viveu Enoque sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.” (Gênesis 5:21-24)

Paulo diz que ele foi trasladado para a Casa de Deus sem conhecer a morte simplesmente porque teve fé que Deus o aceitaria:

“Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus”. (Hebreus 11:5)

Os registros

Certamente todos os cristãos gostariam de ser abençoados com mais registros deste varão incomum. É difícil pensar nesta possibilidade quando se trata de alguém que é da 7ª geração depois de Adão e viveu antes do dilúvio de Noé.

O que pouca gente não sabe é que há manuscritos que reclamam a sua autoria. O livro de I Enoque é considerado um apócrifo pela maior parte dos cristãos e judeus de hoje. Isso quer dizer que oficialmente as pessoas não o reconhecem como algo que é legitimamente inspirado por Deus e, portanto, são palavras com revelações erradas ou falsificadas, carecendo de respaldo e testemunho.

Tudo não acaba por aí. É impressionante que o livro de I Enoque também é citado no livro de Judas, do Novo Testamento:

E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;
Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.” (Judas 1:14-15 e I Enoque 1:9)

Mas para não alongar, apenas compreenda que ele é composto de 108 capítulos e é dividido em 5 partes:

·         1-36 O Livro dos Vigilantes

·         37-71 O Livro das Parábolas

·         72-82 O Livro Astronômico

·         83-90 O livro dos Sonhos

·         91-108 A Epístola de Enoque

Evidências proféticas

O Livro das Parábolas é o mais interessante. Ela se concentra na revelação do futuro Messias judeu. Segundo testes de datação de carbono com estudos liderados pelo Rev. H.R Charles, a cópia existente mais antiga foi escrita de 64 a 94 anos antes de Cristo.

É muito bom saber que datam de antes da vinda ao mundo do Mestre porque, caso tivessem sido escritas após sua vida, não poderíamos certificar se foram forjadas com informações já conhecidas. Desse jeito qualquer um poderia criar seus próprios falsos manuscritos de profecias! Agora, para saber se estas revelações são, em particular, inspiradas por Deus, é só verificar se elas andam em conformidade com o que Jesus, o nosso Messias amplamente confirmado ensinou, ou melhor, se as profecias estão em harmonia. Paulo diz que ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor se não for pelo Espírito de Deus (1 Coríntios 12:3), portanto, se isso glorifica ao nome de Jesus, então é inspirado por Deus! Vamos conferir?

Está em negrito todas as vezes que faz referências ao Messias. Esta tradução é de H.R Charles.

“E ouvi as vozes daquelas quatro presenças como proferindo louvores diante do Senhor da Glória. A voz do primeiro abençoa o Senhor dos espíritos para sempre e eternamente. E a segunda voz que ouvi abençoando ao Eleito e aos eleitos que se apoiaram sobre o Senhor dos Espíritos.” (I Enoque 40:3-6)

-O Messias está diante do Senhor dos Espíritos (Deus);

-O Messias é distinto de todos os outros eleitos;

-Deus está no ponto mais alto de honra, logo depois vem o Messias e os eleitos abaixo deste.

“Naquele dia o meu Eleito se assentará sobre o trono de glória e fará as suas obras e seus lugares de descanso serão inumeráveis. E suas almas [dos santos] deverão crescer fortalecidas dentro deles quando virem o meu Eleito, e aqueles que são chamados pelo meu Nome glorioso: Então farei com que o meu Eleito habite com eles. E eu vou transformar o Céu e torná-lo uma bênção eterna e luz(…)” (I Enoque 45:3-4)

-Deus demonstra ter uma consideração muito especial pelo Messias;

-O Messias seria engrandecido um dia futuro num honroso trono com muita abundância para si;

-Sua glória estava para ser exibida num dia futuro para as pessoas;

-Aqueles que o virem e se apoiassem no Messias seriam fortalecidos e, em paridade com este evento, haveria a restauração dos Céus.

“E lá eu vi que havia um Ancião de dias [Pai Celestial], e sua cabeça era branca como a lã, e com Ele estava outro ser cujo semblante tinha a aparência de um homem, e seu rosto estava cheio de graça, como um dos santos anjos. E eu perguntei ao anjo que foi comigo e que me mostrou todas as coisas ocultas, sobre que este Filho do homem, quem ele era e de onde era e por que ele andava Ancião de Dias? E ele respondeu e disse-me: Este é o Filho do homem que tem a Justiça, com quem habita a Justiça, e que revela todos os tesouros do que é escondido, porque o Senhor dos Espíritos o elegeu, e cujo destino tem a pré-eminência diante do Senhor dos Espíritos em retidão para sempre. E este Filho do Homem que viste levantará reis e poderosos de seus lugares, e fortes de seus tronos e soltar as rédeas do forte, e quebrar os dentes dos pecadores. E porá abaixo os reis de seus tronos e reinos porque eles não o exaltarão nem o louvarão, nem reconhecerão humildemente que os seus reinos foram dados de cima. E Ele porá abaixo o semblante do forte, e deverá preenchê-los com vergonha. E a escuridão será sua habitação e vermes serão sua cama, e eles não têm esperança de levantar de suas camas porque eles não exaltam o nome do Senhor dos Espíritos”. (I Enoque 45:1-6)

-O Pai Celestial é um Ancião de Dias;

-O Messias tem uma aparência de um homem;

-O Messias já habitava na presença de Deus numa posição superior aos anjos do Céu antes de vir ao mundo, tendo toda a pré-eminência;

-Deus o elegeu, e no Messias habita a Justiça;

-Através do Messias Deus irá revelar todas as coisas a Criação;

-O Messias irá fazer julgamento nos grandes da terra que não o louvarem e nem o nome de Deus.

E naquele lugar eu vi a Fonte da Justiça que era inesgotável: E em torno dela havia muitas fontes de sabedoria: E todos os sedentos beberam delas e estavam cheios de sabedoria, e as suas habitações foram entre os justos, os santos e os eleitos. E a nessa hora aquele Filho do Homemfoi invocado na presença do Senhor dos Espíritos e seu nome perante o Ancião de Dias. Sim, antes que o sol e os sinais fossem criados, antes que as estrelas do céu fossem feitas, seu nome foi invocado perante a presença do Senhor dos Espíritos. Ele será um apoio para os justos os quais se firmarão e não cairão, e Ele será a luz dos gentios e a esperança daqueles que são aquebrantados de coração. Todos os que habitam na Terra se prostrarão e o adorarão, e o louvarão, e irão bendizer e festejar com canções ao Senhor dos Espíritos. E por esta razão tem Elesido escolhido e escondido diante dEle antes da criação do mundo e para sempre. E pela sabedoria do Senhor dos Espíritos Ele foi revelado para o santo e justo, pois Ele tem preservado a sorte dos justos porque eles odiaram e desprezaram este mundo de iniqüidade e por terem odiado todas essas obras e caminhos em nome do Senhor dos Espíritos: Porque em Seu nome eles são salvos, e de acordo com a Sua boa vontade que Ele tem preservado as suas vidas. Nestes dias, os reis da Terra se tornarão abatidos de semblante, e o valente que possui a terra por causa das obras das suas mãos, no dia da sua angústia e aflição, não será capaz de salvar-se. E eu lhes colocarei nas mãos do Meu Eleito: como a palha no fogo para eles queimarão diante da face do Santo: Como o conduzir das águas eles afundarão ante a face dos justos, e nenhum vestígio deles deve mais ser encontrado. E no dia em que ocorrerem suas aflições haverá descanso na terra, e eles cairão e não se levantarão mais uma vez: e não haverá ninguém para erguê-los com as mãos e levantá-los, pois eles negaram o Senhor dos Espíritos e Seu Messias. (I Enoque 45:1-10)

-O Messias habitava na presença de Deus antes que todas as coisas fossem criadas;

-Ele seria apoio para os justos, luz para os gentios (ímpios) e esperança daqueles de coração humilde;

-Ele deveria ser adorado como Deus é adorado, e exaltar a um deles não contrapõem o outro, mas fortalece ambos como se fossem um;

-A revelação da glória do Messias um segredo de Deus ansiosamente aguardado antes da criação do mundo;

-Pelo nome do Messias e pela sua boa vontade as pessoas seriam salvas da condenação;

-O Messias faria grande juízo sobre aqueles que negarem o nome dele e o nome de Deus.

Pois a sabedoria é derramada como água, e não faltará glória diante dele para sempre. Porque Ele é poderoso em todos os segredos da justiça, e a injustiça desaparecerá como uma a sombra, e ela não têm continuidade; Porque o Eleito permanece diante do Senhor dos Espíritos e sua glória é para sempre e sempre, e o seu poder a todas as gerações. E nEle habita o espírito de sabedoria, e do Espírito que dá a inteligência, e o espírito de entendimento e de força, e o espírito daqueles que dormem na retidão. E Ele julgará as coisas secretas, e ninguém será capaz de pronunciar uma palavra mentirosa diante dEle, porque ele é o Eleito perante o Senhor dos Espíritos segundo a sua boa vontade. (I Enoque 49:1-9)

- No Messias habita o espírito de sabedoria, de inteligência, de entendimento, de força, e daqueles que dormem em retidão. Ele tem todos os atributos divinos de poder;

-O Messias será o Juiz de todas as coisas.

E, naqueles dias, certamente a Terra também deverá devolver o que foi confiado para ela, e a sepultura também deverá devolver o que recebeu, e o inferno irá dar de volta aquilo que possui. Porque naqueles dias o Eleito se levantará e Ele vai escolher os justos e santos de entre eles: Porque tem se aproximado o dia em que eles serão salvos. E o Eleito naqueles dias irá se assentar no Meu trono, e da sua boca jorrará todos os segredos da sabedoria e do conselho: Porque o Senhor dos Espíritos os deu para Ele e o glorificou. E, naqueles dias, as montanhas saltarão como carneiros, as colinas também saltarão como cordeiros satisfeitos com leite, e os rostos de todos os anjos no céu serão iluminados com alegria. E a Terra se alegrará, e os justos habitarão nela, e o eleito irá andar sobre ela. (I Enoque 51:1-3)

- Um dia, todas as pessoas que morreram ressuscitarão da terra e do mar;

-O Messias irá, pessoalmente, escolher dentre os ressurretos quais haveriam de ser salvos;

-O Messias iria se assentar no próprio trono de Deus;

-O Messias teria todo o entendimento e sabedoria de Deus;

-Toda a criação se alegrará e a glória de Deus será grande no Céu e na Terra.

E eu perguntei ao anjo que foi comigo, dizendo: “Que coisas são essas que eu tenho visto em segredo?” E disse-me: “Todas essas coisas que tens visto servirá ao domínio do seu Messias para que Ele possa ser forte e poderoso na terra.” (I Enoque 52:3-4)

-Todas as coisas na Terra são feitas para a glória do Messias.

Deus, o Senhor dos Espíritos. Vós, reis poderosos que habitam sobre a terra, vocês devem ver o Meu Eleito, como Ele está sentado no trono de glória e faz julgamento a Azazel (Lúcifer), e todos os seus seguidores (anjos caídos, demônios), e todos os seus exércitos em nome do Senhor dos Espíritos. (I Enoque 54:4)

-Deus quer chamar a atenção para o Messias, pois demonstra ter prazer nele;

-Deus fará com que este fosse glorificado sobremaneira diante dos homens e dos anjos;

-O Messias iria julgar Satanás e todos os seus exércitos (demônios e homens ímpios).

E essas medidas devem revelar todos os segredos das profundezas da terra, e aqueles que foram destruídos pelo deserto, e aqueles que foram devorados pelos animais selvagens, e aqueles que foram devorados pelos peixes do mar, que eles possam retornar e estarem firmes no dia do Eleito, pois ninguém deverá ser destruído perante o Senhor dos Espíritos, e não podem ser destruídos. E todos os que habitam acima no Céu receberam um comando e poder e uma só voz e uma luz semelhante ao fogo. E foi para Ele que aquelas palavras de benção foram destinadas, e o exaltou e louvou com sabedoria, e eles foram sábios em seus dizeres e no espírito da vida. E o Senhor dos Espíritos colocou o Eleito no trono de glória. (I Enoque 61:5-8)

-Os homens justos que morreram em todas as partes do mundo seriam restaurados;

-Eles seriam apresentados diante do Messias;

-Todo o Céu se alegrou com o Messias e exaltou o seu nome;

-Deus engrandeceu ao Messias no seu merecido trono;

Semelhanças com o livro de Daniel

A descrição a respeito do Messias no livro de I Enoque se parece muito com trechos do livro de Daniel, do AT da Bíblia:

Eu [Daniel] continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um Ancião de dias [Pai Celestial] se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros. (…) Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem; e dirigiu-se ao Ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado [para o Filho do Homem] o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído. 
Daniel 7:9-10 e 13-14

 

O LIVRO APÓCRIFO-ENOQUE

 

 

 

Um dos livros apócrifos mais fascinantes é sem dúvida o livro de I Enoque (ou Enoque etíope), geralmente datado para o século II a.C. Este livro foi redigido originalmente em aramaico, mas a única versão disponível hoje está em etíope. Escrito em linguagem apocalíptica, entre 170 e 64 a.C., o livro carrega algumas semelhanças com oApocalipse de João, cuja composição se deu mais de dois séculos depois. Abaixo um trecho do livro que descreve o nascimento deNoé:

Depois de alguns dias, meu filho Matusalém escolheu uma mulher para seu filho Lamech; ela engravidou e deu à luz um menino. O seu corpo era branco como a neve e vermelho como uma rosa, os cabelos da sua cabeça eram como a lã e os seus olhos como os raios do sol. Quando abriu os olhos encheu a casa de luz como o sol, e toda ela ficou muito iluminada (I En 106,1).

Outra parte bastante interessante do livro são os capítulos 6 a 16, que narram a queda dos anjos após desobedecerem a Deus acasalando-se com as mulheres humanas. Tudo começa comSemjaza, um anjo disposto a pagar o preço por sua desobediência. Ele relata seu desejo aos demais anjos, que decidem segui-lo no plano. Semjasa é acompanhado por mais dezoito anjos, que por sua vez chefiam, cada um, outros dez. Após levarem a cabo o plano, problemas inusitados começam a surgir:

Elas [as mulheres humanas] engravidaram e deram à luz a gigantes de 3.000 côvados de altura. Estes consumiram todas as provisões de alimentos dos demais homens. E quando as pessoas nada mais tinham para dar-lhes os gigantes voltaram-se contra elas e começaram a devorá-las (I En 6,2).

Mas os problemas não param por aí. Os anjos rebeldes transmitem seus conhecimentos aos homens, tais como a astrologia, ametalurgia, a ciência da confecção de cosméticos, as fases da lua, a feitiçaria, etc. Tais conhecimentos causam muitas guerras e o homem chega perto da aniquilação.

 

Após ouvirem o clamor dos homens e virem todas as desgraças causadas pelos anjos rebeldes, MiguelUrielRafael e Gabrielrelatam o problema ao “Senhor dos mundos”, que decide purificar a terra com um dilúvio e punir os anjos perversos lançando-os num abismo de fogo.

 

O livro é fruto de uma tentativa de preencher uma lacuna existente no capítulo seis do livro do Gênesis:

“viram os filhos de Deus (hb. bney haelohim) que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram” (Gn 6,2).

No relato do livro de Enoque os bney haelohim (filhos de Deus) são os anjos e a decisão de Deus de destruir a terra (Gn 6,7) é provocada por esse episódio.

 

Resquícios da história contada neste livro são percebidos na epístola deJudas (Jd 14, s).

 

O APÓCRIFO DE II ENOQUE, OU ENOQUE ESLAVO (RESUMO)

 Por Jones Mendonça

 

Publiquei aqui no Numinosum um pequeno trecho o livro de I Enoque, que narra de maneira fantástica onascimento de Noé e a queda dos anjos rebeldes.

 

Outro livro cujo autor utiliza o pseudônimo de Enoque é o Livro dos segredos de Enoque, também conhecido como II Enoque ou Enoque eslavo. Apesar de ter sido escrito em grego, só nos resta uma versão eslava. Este segundo livro relata a viagem de Enoque até o décimo céu, onde “está Deus, [que] na língua hebraica [...] é chamado Aravat” (II En 20,3). A viagem é iniciada após Enoque ser visitado por dois homens “extraordinariamente grandes”, cujas “faces resplandeciam como o sol” e cujos olhos “eram como chama” (II En 1,6). Após despedir-se de sua família, Enoque é inicialmente levado pelos homens ao primeiro céu em suas asas, que eram “mais brilhantes que o ouro” (II En 3). Cada um dos céus possui uma particularidade especial. Seguem abaixo as características principais de cada um deles:

 

§     1° céu – Enoque vê os anjos que trabalham na ordenação das estrelas, nos depósitos de neve e na tesouraria do orvalho. O primeiro céu é uma espécie de “casa de máquinas” do mundo, cujos trabalhadores são os anjos (cap. 3-6).

§     2° céu – Neste local ficam aprisionados os anjos infiéis a Deus, que são torturados e choram incessantemente. O príncipe desses anjos fica acorrentado no quinto céu (cap. 7).

§     3° céu – No terceiro céu fica o paraíso. Nele há um jardim onde Deus descansa, guardado por trezentos anjos muito brilhantes (cap. 8). O terceiro céu é também para onde vão os “que fazem julgamentos justos, que levam pão aos famintos e que cobrem de vestes os nus” (cap. 9).  O norte deste lugar, escuro e tenebroso, é reservado “aos que desonram a Deus”. É para lá que vão os mentirosos, invejosos, opressores dos pobres e fornicadores (cap. 10).

§     4° céu – No quarto céu Enoque contempla a órbita do sol (que é aceso por cem anjos), e da lua (cap. 11).  Enoque também vê “outros elementos voadores do céu”, que o acompanham na sua órbita, lhe dando calor e orvalho (cap. 12). Por fim ele fala dos seis “postais do sol”, por onde o grande astro passa ao longo do ano (cap. 13, 14 e 15).  O curso da lua, cheio de detalhes numéricos, é descrito nos capítulos 16 e 17.

§     5° céu – Soldados gigantes e mudos chamados Grigori são vistos no quinto céu. Juntamente com seu príncipe, Satanail, rejeitaram o Senhor da Luz tomando por esposas as filhas dos homens (este curioso episódio é descrito nos capítulo 6 a 16 do Livro de I Enoque).

§     6° céu – Neste céu ficam os anjos responsáveis pelas estações do ano, dos rios, dos mares e dos frutos da terra. Eles também são incumbidos de anotar todos os feitos dos homens diante do Senhor (cap. 19).

§     7° céu – No sétimo céu há uma  grande quantidade de arcanjos, querubins, serafins e toda a sorte de ordens angelicais. É lá que fica o trono de Deus.

§     8° céu – O oitavo céu é chamado de Muzaloth, o que muda as estações, a seca, a umidade e os doze signos do zodíaco, que estão acima do sétimo céu (cap. 21).

§     9° céu – É chamado de Kuchavim, onde estão as casas celestes dos doze signos do zodíaco (cap. 21).

§     10° céu – Chamado de Aravoth, é lá que a face do Senhor pode ser contemplada, descrita como sendo semelhante ao “ferro que arde no fogo e que, as sair, emite faíscas e queima” (cap. 22).

Nos demais capítulos (23 ao o 61), Deus conta a Enoque como criou o universo e lhe transmite uma série de ensinamentos. Enoque retransmite esses ensinamentos aos seus filhos. No último capítulo lemos o seguinte:

Ele [Enoque] anotou todos esses sinais de toda a criação, criada pelo Senhor, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros, entregou-os a seus filhos e permaneceu na terra trinta dias, sendo novamente levado para o Céu no sexto dia do mês de Tsivan, no dia e na hora exata em que nascera (En 61,3).

A idéia da existência de dez céus estava profundamente enraizada na cultura judaica. Paulo, por exemplo, diz ter ido ao terceiro céu (2 Co 12,2).

 

RESUMO DE ALGUNS APÓCRIFOS (OU PSEUDEPÍGRAFOS OU EXTRACANÔNICOS) DO ANTIGO TESTAMENTO

Por Jones Mendonça

 

A quantidade de livros rejeitados pelo cânon judaico e cristão (católicos e protestantes) é bem extensa. Alejandro Diez Macho contabiliza 66 livros[1] (incluindo os fragmentos de obras perdidas). Segundo o gênero literário são classificados da seguinte forma:narrativastestamentossapienciaisapocalípticos e Salmos eorações.

 

Ainda que muito do conteúdo dos apócrifos seja uma tentativa de preencher lacunas deixadas pelos escritos canônicos, tais como a morte de Moisés, a origem dos demônios e o martírio dos profetas, nem todo o seu conteúdo deve ser encarado como mera fantasia. Judas (Jd 14) cita o profeta Enoque quando diz: “Eis que o Senhor veio [...] exercer o julgamento sobre todos os homens e argüir todos os ímpios...” (citando Enoque 1,9). Também parece citar o apócrifoAssunção de Moisés no versículo 9. O Livro de Hebreus fala de mártires que “foram serrados ao meio” (Hb 11,37) parecendo se referir ao apócrifo Ascensão de Isaías.

 

Segue abaixo um breve resumo de alguns dos mais conhecidos apócrifos do Antigo testamento:

 

1 Henoc (séc. II a.C. - I d.C.) – Também conhecido como Enoque Etíope, o livro é formado pela junção de cinco outros livros: O livro dos Vigilantes (caps. 1-36), das Parábolas (caps. 37-71), da astronomia (caps. 72-82), dos Sonhos (caps. 83-90), e o das semanas e Carta de Enoque (caps. 91-105). O livros dos Vigilantes é sem dúvida o mais conhecido. Ele descreve a queda dos anjos após terem se relacionado sexualmente com mulheres humanas (cap. 7). Dessa relação nasceram gigantes de 3.000 côvados de altura que devoravam as pessoas e os animais. Também descreve como Azazel, um dos anjos caídos, ensinou os homens a arte de trabalhar com metais (cap. 8). Há muitos detalhes curiosos no livro, como a descrição de anjos rebeldes pedindo que Enoque interceda e ore por eles (4,6-7), e o nascimento de Noé, que vem ao mundo com o seu corpo “branco como a neve e vermelho como uma rosa, os cabelos de sua cabeça [...] como a lã e os seus olhos como os raios do sol” (106,1)

 

2 Henoc (final do séc. I d.C.) – Também chamado de “Os Segredos de Enoque”. O livro descreve a viagem de Enoque aos sete céus com um conteúdo apocalíptico cheio de curiosidades sobre a criação do universo, o mundo dos astros, dos anjos e de realidades escatológicas.

 

Jubileus (séc. II a.C.) – O livro tem esse nome porque a história nele contida é apresentada em períodos jubilares de 7 em 7 anos. O livro dos Jubileus, assim como o livro de Enoque, repete a idéia dos anjos guardiões que tiveram relações sexuais com as mulheres humanas, dando origem aos gigantes.

 

Vida de Adão e Eva (séc. I d.C.) – O livro possui duas versões, uma grega e outra latina. Escrita originalmente em hebraico, a primeira obra é uma “narração haggádica do tipo midráxico sobre os primeiros capítulos do Gênesis”[2]. A distinção entre alma e corpo está presente na obra, ao contrário do que pensava o judaísmo primitivo. Há no livro uma insistencia na ressurreição de Adão e Eva como fenômeno escatológico dos últimos dias. A versão latina é diferente da primeira em diversos pontos. Numa parte do livro Adão pergunta a Satã o porque de sua maldade. Satã lhe responde que foi expulso do céu por sua culpa, já que Miguel havia exigido que os anjos adorassem o primeiro homem criado à imagem de Deus. Como na versão grega, o livro fala da ressurreição dos mortos nos últimos dias.

 

Martírio e Ascensão de Isaías (séc. II a.C. - IV d.C.) – O livro se divide em duas partes: o “Martírio de Isaías” e a “Visão de Isaías”. A primeira parte narra a perseguição do rei Manassés ao profeta, principalmente por ter afirmado ter visto Deus (cf. Is 6). Ao se esconder num tronco oco, Isaías teria sido serrado ao meio por ordem do rei. Um trecho do livro de Hebreus (Hb 11,36,37), parece fazer alusão a esse episódio. A segunda parte do livro é uma adição feita por um redator cristão no final do século I ou início do século II. Assumindo o pesudônimo “Isaías”, o autor narra uma viagem que fez aos sete céus.

 

Oráculos Sibilinos (incluindo todos; séc. II a.C. - VII d.C.) – É uma coleção de oráculos judaicos que imitam os oráculos sibilinos pagãos com o intuito de propagar o pensamento judaico entre os gentios. Segundo Pierre Grelot, a destruição de uma coleção de oráculos atribuídos à Sibila, num incêndio em 82 a.C., motivou os judeus a lançarem uma nova coleção de Livros Sibilinos contendo crenças judaicas numa apresentação popular[3]. A obra na sua forma atual é uma mescla de materiais pagãos, judeus e cristãos.

 

Referências bibliográficas:

GRELOT, Pierre. Esperança judaica no tempo de Jesus. São Paulo: Loyola, 1996.

MAIER, Johann. Entre os dois testamentos: História e religião na época dos Segundo Templo. São Paulo: Loyola, 2005.

MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I. Madrid, Ediciones Cristandad, 1984.

NOQUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Religião de visionários: apocalíptica e misticismo no cristianismo primitivo. São Paulo: Loyola, 2005.
GABEL, John. B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 2003.

 

Notas:
[1] MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I , 1984, p. 39.
[2] Id. ibid., p.195.
[3] GRELOT, Pierre. Esperança judaica no tempo de Jesus. 1996, p. 90,91.

 

 

Crédito da imagem:

Tela de Luca Giordano

A queda dos anjos rebeldes (1666),

Museu artístico e histórico de Viena.

 

APÓCRIFOS DO ANTIGO TESTAMENTO

1. Introdução

Para Alejandro Diez, a literatura apócrifa pode ser entendida como “um conjunto de obras judaicas (ou, excepcionalmente, judaico-cristãs) escritas no período compreendido entre o ano  200 a.C. e 220 d.C., obras que se pretendem inspiradas [...], tendo como autor ou como interlocutor um personagem do Antigo Testamento”[1]. Essas obras foram escritas em tempos difíceis para o judaísmo. Após a queda do império persa e a morte de Alexandre, os judeus foram subjugados pelos selêucidas. Antíoco Epifanes, rei dos selêucidas (Síria), queria helenizar os judeus e esse período foi marcado por perseguições e afrontas ao judaísmo. Dentre as medidas anti-judaicas tomadas por Antíoco, estão a proibição da circuncisão e da guarda do sábado. O anti-helenismo, o desejo de independência política e a purificação do judaísmo da influência pagã se tornaram intensas. Tudo isso culminou numa luta armada, liderada pelo sacerdote Matatias e seus filhos.

 

A literatura apócrifa do Antigo Testamento é bastante extensa e podemos dividi-la em duas partes. A primeira é composta por livros considerados espúrios pelo judaísmo, catolicismo e protestantismo (chamados de pseudepígrafos) e a segunda por livros aceitos como inspirados pela Igreja Católica. Os católicos os chamam dedeuterocanônicos (dêutero= segundo) porque a canonização definitiva desses livros pela Igreja Católica só foi feita em 1546 noConcílio de Trento. A relação de livros canonizados pelos católicos é composta por sete livros e dois acréscimos.


 

2. Deuterocanônicos católicos:

Tobias, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Judite, Baruque e I e II Macabeus, acréscimos ao livro de Daniel e Ester. Segue abaixo um breve resumo desses livros:


 

Tobias – O livro relata a saga de Tobias, filho de Tobit. Após o pai de Tobias perder todos os seus bens e ficar cego ao ter seus olhos atingidos pelo excremento de um pássaro, Tobias sai em busca de uma quantia em dinheiro devida a seu pai e da mão Sara, uma mulher que lhe havia sido prometida em casamento. Além da longa jornada, Tobias tem um outro desafio, já que sua pretendente é atormentada por um demônio chamado Asmodeu, que mata todos os seus pretendentes. Diante desse desafio, Tobias ora a Deus, que envia o anjo Rafael para ajudá-lo na tarefa.

No meio da jornada Tobias quase é devorado por um peixe, mas é salvo pelo anjo Rafael, que retira o fígado, o coração e o fel do peixe.Rafael lhe diz que o coração e o fígado do peixe seriam utilizados para expulsar Asmodeu e o fel curaria a cegueira de seu pai. Tobias recupera o dinheiro, expulsa Asmodeu e casa-se com Sara, herdando os seus bens. Ao retornar para sua casa, seu pai é curado de sua cegueira com o fel do peixe.


 

Sabedoria de Salomão – O livro possui pontos de contato com o livro de Provérbios e tem como tema central a busca pela Sabedoria. O autor insiste na doutrina da retribuição, onde os justos serão recompensados e os ímpios serão punidos. A redação do livro geralmente é situada entre os anos 130 a 50 a.C.


 

Eclesiástico – Também conhecido como Sirácida, por causa do nome do seu autor, “Jesus filho de Sirac, filho de Eleazar de Jerusalém” (50,27), o livro é, como a Sabedoria de Salomão, uma exaltação da sabedoria judaica. Diante da crescente influência da cultura grega o autor escreve sua obra, colocando-se na defesa dos valores religiosos e culturais do judaísmo, de sua concepção de Deus e do mundo. Para o autor, a Lei dada a Israel é superior ao pensamento grego, e nela se encerra a verdadeira sabedoria.


 

Judite – O livro conta a história de Judite, uma bela mulher israelita que seduz o chefe supremo do exército inimigo que tentava invadir a Judéia. Fazendo-se passar por traidora, Judite embriaga e engana o general Holofernes, cortando sua cabeça. Agora sem comando o exército assírio foge desesperado. O livro foi escrito em meados do século II a.C.


 

Baruque – Também conhecido como “Carta de Jeremias”, o livro é um pseudo-epígrafo, já que o autor se faz passar por Baruc, secretário do profeta Jeremias. Mas o livro foi escrito após o exílio, talvez no século II a.C. Após uma introdução histórica, que situa a redação do livro na Babilônia, cinco anos após a destruição de Jerusalém, o livro pode ser dividido em duas partes: 1) Uma confissão dos pecados e uma súplica, a serem feitas pelos israelitas diante de Deus; 2) Uma exortação sapiencial e um oráculo de restauração.


 

I Macabeus – Escrito originalmente em hebraico o livro narra a revolta do movimento macabaico contra a influência helenística: “Construíram então, em Jerusalém, uma praça de esportes, segundo os costumes das nações, restabeleceram seus prepúcios e renegaram a aliança sagrada” (1 Mc 1,14). O livro trata essencialmente do nacionalismo judaico e da guerra da independência.


 

II Macabeus – O segundo livro dos Macabeus descreve os acontecimentos compreendidos entre a inspeção de Heliodoro, sob Onias II, em cerca de 180, e a morte de Nicanor em 161. O livro deixa bem evidante sua intenção de legitimar o sacerdócio asmoneu. A influência do helenismo também é destacada no livro: “verificou-se, desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros [...] que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, corriam a tomar parte na iníqua distribuição de óleo no estádio, após o sinal do disco” (2 Mc 4,13a 14-15).


 

Acréscimos ao livro de Daniel – Há três acréscimos gregos feitos ao livro de Daniel: o Cântico de AzariasBel e o dragão e ahistória de Suzana.


 

primeira adição ao livro de Daniel encontra-se no capítulo 3 e tem como propósito descrever o que se passou com Ananias, Azarias e Misael (Sidrac, Misac e Abdnêgo) após serem lançados numa fornalha ardente.


 

segunda adição ao livro de Daniel encontra-se nos capítulos 12 e 13. Na história Daniel soluciona um caso envolvendo dois anciãos que tentaram violentar a bela Suzana.


 

terceiro e último acréscimo ao livro de Daniel é uma crítica à idolatria (cap. 14). Com sua astúcia, Daniel mostra ao rei que os ídolos não comiam as oferendas a ele dedicadas. Daniel desmascara os sacerdotes que as retiravam por uma porta secreta. Ao final da história o rei entrega o ídolo a Daniel que o destrói.


 

Acréscimos ao livro de Ester – Após ser avisado em sonho de uma conspiração para matar o rei e surpreender dois eunucos tramando o golpe, o judeu Mardoqueu faz uma denúncia ao monarca, que manda matar os dois homens. Mas por trás do plano estava Amã, um alto funcionário da corte, que querendo se vingar convence o rei a escrever uma carta ordenando a matança dos judeus. A bela rainha Ester, sabendo do ocorrido, se apresenta diante do rei e desmaia, fazendo-o mudar de idéia. Uma nova carta é escrita e Amã acaba enforcado por ordem do rei.

 

Nota:

[1] Tradução livre do autor. Texto original: “Por literatura apócrifa judía entendemos un conjunto de obras judías (ou, excepcionalmente, judeocristianas) escritas em el período compreendido entre el año 200 a.C. y el 220 d.C., obras pretendidamente inspiradas e referidas, ya sea como autor o como interlocutor a un personaje del Antiguo Testamento”. MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I. Madrid, Ediciones Cristandad, 1984, p.27.

 

 

FONTE:

http://adoradoresdejesus.wordpress.com

http://comandomaior.blogspot.com.br

http://www.igrejavaroesdeguerra.com.br