75-RESUMOS DE ALGUNS APÓCRIFOS

17/06/2013 00:30

RESUMO DE ALGUNS APÓCRIFOS (OU PSEUDEPÍGRAFOS OU EXTRACANÔNICOS) DO ANTIGO TESTAMENTO

 

 

A quantidade de livros rejeitados pelo cânon judaico e cristão (católicos e protestantes) é bem extensa. Alejandro Diez Macho contabiliza 66 livros[1] (incluindo os fragmentos de obras perdidas). Segundo o gênero literário são classificados da seguinte forma:narrativastestamentossapienciaisapocalípticos e Salmos eorações.

 

Ainda que muito do conteúdo dos apócrifos seja uma tentativa de preencher lacunas deixadas pelos escritos canônicos, tais como a morte de Moisés, a origem dos demônios e o martírio dos profetas, nem todo o seu conteúdo deve ser encarado como mera fantasia. Judas (Jd 14) cita o profeta Enoque quando diz: “Eis que o Senhor veio [...] exercer o julgamento sobre todos os homens e argüir todos os ímpios...” (citando Enoque 1,9). Também parece citar o apócrifoAssunção de Moisés no versículo 9. O Livro de Hebreus fala de mártires que “foram serrados ao meio” (Hb 11,37) parecendo se referir ao apócrifo Ascensão de Isaías.

 

Segue abaixo um breve resumo de alguns dos mais conhecidos apócrifos do Antigo testamento:

 

1 Henoc (séc. II a.C. - I d.C.) – Também conhecido como Enoque Etíope, o livro é formado pela junção de cinco outros livros: O livro dos Vigilantes (caps. 1-36), das Parábolas (caps. 37-71), da astronomia (caps. 72-82), dos Sonhos (caps. 83-90), e o das semanas e Carta de Enoque (caps. 91-105). O livros dos Vigilantes é sem dúvida o mais conhecido. Ele descreve a queda dos anjos após terem se relacionado sexualmente com mulheres humanas (cap. 7). Dessa relação nasceram gigantes de 3.000 côvados de altura que devoravam as pessoas e os animais. Também descreve como Azazel, um dos anjos caídos, ensinou os homens a arte de trabalhar com metais (cap. 8). Há muitos detalhes curiosos no livro, como a descrição de anjos rebeldes pedindo que Enoque interceda e ore por eles (4,6-7), e o nascimento de Noé, que vem ao mundo com o seu corpo “branco como a neve e vermelho como uma rosa, os cabelos de sua cabeça [...] como a lã e os seus olhos como os raios do sol” (106,1)

 

2 Henoc (final do séc. I d.C.) – Também chamado de “Os Segredos de Enoque”. O livro descreve a viagem de Enoque aos sete céus com um conteúdo apocalíptico cheio de curiosidades sobre a criação do universo, o mundo dos astros, dos anjos e de realidades escatológicas.

 

Jubileus (séc. II a.C.) – O livro tem esse nome porque a história nele contida é apresentada em períodos jubilares de 7 em 7 anos. O livro dos Jubileus, assim como o livro de Enoque, repete a idéia dos anjos guardiões que tiveram relações sexuais com as mulheres humanas, dando origem aos gigantes.

 

Vida de Adão e Eva (séc. I d.C.) – O livro possui duas versões, uma grega e outra latina. Escrita originalmente em hebraico, a primeira obra é uma “narração haggádica do tipo midráxico sobre os primeiros capítulos do Gênesis”[2]. A distinção entre alma e corpo está presente na obra, ao contrário do que pensava o judaísmo primitivo. Há no livro uma insistencia na ressurreição de Adão e Eva como fenômeno escatológico dos últimos dias. A versão latina é diferente da primeira em diversos pontos. Numa parte do livro Adão pergunta a Satã o porque de sua maldade. Satã lhe responde que foi expulso do céu por sua culpa, já que Miguel havia exigido que os anjos adorassem o primeiro homem criado à imagem de Deus. Como na versão grega, o livro fala da ressurreição dos mortos nos últimos dias.

 

Martírio e Ascensão de Isaías (séc. II a.C. - IV d.C.) – O livro se divide em duas partes: o “Martírio de Isaías” e a “Visão de Isaías”. A primeira parte narra a perseguição do rei Manassés ao profeta, principalmente por ter afirmado ter visto Deus (cf. Is 6). Ao se esconder num tronco oco, Isaías teria sido serrado ao meio por ordem do rei. Um trecho do livro de Hebreus (Hb 11,36,37), parece fazer alusão a esse episódio. A segunda parte do livro é uma adição feita por um redator cristão no final do século I ou início do século II. Assumindo o pesudônimo “Isaías”, o autor narra uma viagem que fez aos sete céus.

 

Oráculos Sibilinos (incluindo todos; séc. II a.C. - VII d.C.) – É uma coleção de oráculos judaicos que imitam os oráculos sibilinos pagãos com o intuito de propagar o pensamento judaico entre os gentios. Segundo Pierre Grelot, a destruição de uma coleção de oráculos atribuídos à Sibila, num incêndio em 82 a.C., motivou os judeus a lançarem uma nova coleção de Livros Sibilinos contendo crenças judaicas numa apresentação popular[3]. A obra na sua forma atual é uma mescla de materiais pagãos, judeus e cristãos.

 

Referências bibliográficas:

GRELOT, Pierre. Esperança judaica no tempo de Jesus. São Paulo: Loyola, 1996.

MAIER, Johann. Entre os dois testamentos: História e religião na época dos Segundo Templo. São Paulo: Loyola, 2005.

MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I. Madrid, Ediciones Cristandad, 1984.

NOQUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Religião de visionários: apocalíptica e misticismo no cristianismo primitivo. São Paulo: Loyola, 2005.
GABEL, John. B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 2003.

 

Notas:
[1] MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I , 1984, p. 39.
[2] Id. ibid., p.195.
[3] GRELOT, Pierre. Esperança judaica no tempo de Jesus. 1996, p. 90,91.

 

 

Crédito da imagem:

Tela de Luca Giordano

A queda dos anjos rebeldes (1666),

Museu artístico e histórico de Viena.

 

APÓCRIFOS DO ANTIGO TESTAMENTO

1. Introdução

Para Alejandro Diez, a literatura apócrifa pode ser entendida como “um conjunto de obras judaicas (ou, excepcionalmente, judaico-cristãs) escritas no período compreendido entre o ano  200 a.C. e 220 d.C., obras que se pretendem inspiradas [...], tendo como autor ou como interlocutor um personagem do Antigo Testamento”[1]. Essas obras foram escritas em tempos difíceis para o judaísmo. Após a queda do império persa e a morte de Alexandre, os judeus foram subjugados pelos selêucidas. Antíoco Epifanes, rei dos selêucidas (Síria), queria helenizar os judeus e esse período foi marcado por perseguições e afrontas ao judaísmo. Dentre as medidas anti-judaicas tomadas por Antíoco, estão a proibição da circuncisão e da guarda do sábado. O anti-helenismo, o desejo de independência política e a purificação do judaísmo da influência pagã se tornaram intensas. Tudo isso culminou numa luta armada, liderada pelo sacerdote Matatias e seus filhos.

 

A literatura apócrifa do Antigo Testamento é bastante extensa e podemos dividi-la em duas partes. A primeira é composta por livros considerados espúrios pelo judaísmo, catolicismo e protestantismo (chamados de pseudepígrafos) e a segunda por livros aceitos como inspirados pela Igreja Católica. Os católicos os chamam dedeuterocanônicos (dêutero= segundo) porque a canonização definitiva desses livros pela Igreja Católica só foi feita em 1546 noConcílio de Trento. A relação de livros canonizados pelos católicos é composta por sete livros e dois acréscimos.


 

2. Deuterocanônicos católicos:

Tobias, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Judite, Baruque e I e II Macabeus, acréscimos ao livro de Daniel e Ester. Segue abaixo um breve resumo desses livros:


 

Tobias – O livro relata a saga de Tobias, filho de Tobit. Após o pai de Tobias perder todos os seus bens e ficar cego ao ter seus olhos atingidos pelo excremento de um pássaro, Tobias sai em busca de uma quantia em dinheiro devida a seu pai e da mão Sara, uma mulher que lhe havia sido prometida em casamento. Além da longa jornada, Tobias tem um outro desafio, já que sua pretendente é atormentada por um demônio chamado Asmodeu, que mata todos os seus pretendentes. Diante desse desafio, Tobias ora a Deus, que envia o anjo Rafael para ajudá-lo na tarefa.

No meio da jornada Tobias quase é devorado por um peixe, mas é salvo pelo anjo Rafael, que retira o fígado, o coração e o fel do peixe.Rafael lhe diz que o coração e o fígado do peixe seriam utilizados para expulsar Asmodeu e o fel curaria a cegueira de seu pai. Tobias recupera o dinheiro, expulsa Asmodeu e casa-se com Sara, herdando os seus bens. Ao retornar para sua casa, seu pai é curado de sua cegueira com o fel do peixe.


 

Sabedoria de Salomão – O livro possui pontos de contato com o livro de Provérbios e tem como tema central a busca pela Sabedoria. O autor insiste na doutrina da retribuição, onde os justos serão recompensados e os ímpios serão punidos. A redação do livro geralmente é situada entre os anos 130 a 50 a.C.


 

Eclesiástico – Também conhecido como Sirácida, por causa do nome do seu autor, “Jesus filho de Sirac, filho de Eleazar de Jerusalém” (50,27), o livro é, como a Sabedoria de Salomão, uma exaltação da sabedoria judaica. Diante da crescente influência da cultura grega o autor escreve sua obra, colocando-se na defesa dos valores religiosos e culturais do judaísmo, de sua concepção de Deus e do mundo. Para o autor, a Lei dada a Israel é superior ao pensamento grego, e nela se encerra a verdadeira sabedoria.


 

Judite – O livro conta a história de Judite, uma bela mulher israelita que seduz o chefe supremo do exército inimigo que tentava invadir a Judéia. Fazendo-se passar por traidora, Judite embriaga e engana o general Holofernes, cortando sua cabeça. Agora sem comando o exército assírio foge desesperado. O livro foi escrito em meados do século II a.C.


 

Baruque – Também conhecido como “Carta de Jeremias”, o livro é um pseudo-epígrafo, já que o autor se faz passar por Baruc, secretário do profeta Jeremias. Mas o livro foi escrito após o exílio, talvez no século II a.C. Após uma introdução histórica, que situa a redação do livro na Babilônia, cinco anos após a destruição de Jerusalém, o livro pode ser dividido em duas partes: 1) Uma confissão dos pecados e uma súplica, a serem feitas pelos israelitas diante de Deus; 2) Uma exortação sapiencial e um oráculo de restauração.


 

I Macabeus – Escrito originalmente em hebraico o livro narra a revolta do movimento macabaico contra a influência helenística: “Construíram então, em Jerusalém, uma praça de esportes, segundo os costumes das nações, restabeleceram seus prepúcios e renegaram a aliança sagrada” (1 Mc 1,14). O livro trata essencialmente do nacionalismo judaico e da guerra da independência.


 

II Macabeus – O segundo livro dos Macabeus descreve os acontecimentos compreendidos entre a inspeção de Heliodoro, sob Onias II, em cerca de 180, e a morte de Nicanor em 161. O livro deixa bem evidante sua intenção de legitimar o sacerdócio asmoneu. A influência do helenismo também é destacada no livro: “verificou-se, desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros [...] que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, corriam a tomar parte na iníqua distribuição de óleo no estádio, após o sinal do disco” (2 Mc 4,13a 14-15).


 

Acréscimos ao livro de Daniel – Há três acréscimos gregos feitos ao livro de Daniel: o Cântico de AzariasBel e o dragão e ahistória de Suzana.


 

primeira adição ao livro de Daniel encontra-se no capítulo 3 e tem como propósito descrever o que se passou com Ananias, Azarias e Misael (Sidrac, Misac e Abdnêgo) após serem lançados numa fornalha ardente.


 

segunda adição ao livro de Daniel encontra-se nos capítulos 12 e 13. Na história Daniel soluciona um caso envolvendo dois anciãos que tentaram violentar a bela Suzana.


 

terceiro e último acréscimo ao livro de Daniel é uma crítica à idolatria (cap. 14). Com sua astúcia, Daniel mostra ao rei que os ídolos não comiam as oferendas a ele dedicadas. Daniel desmascara os sacerdotes que as retiravam por uma porta secreta. Ao final da história o rei entrega o ídolo a Daniel que o destrói.


 

Acréscimos ao livro de Ester – Após ser avisado em sonho de uma conspiração para matar o rei e surpreender dois eunucos tramando o golpe, o judeu Mardoqueu faz uma denúncia ao monarca, que manda matar os dois homens. Mas por trás do plano estava Amã, um alto funcionário da corte, que querendo se vingar convence o rei a escrever uma carta ordenando a matança dos judeus. A bela rainha Ester, sabendo do ocorrido, se apresenta diante do rei e desmaia, fazendo-o mudar de idéia. Uma nova carta é escrita e Amã acaba enforcado por ordem do rei.

 

Nota:

[1] Tradução livre do autor. Texto original: “Por literatura apócrifa judía entendemos un conjunto de obras judías (ou, excepcionalmente, judeocristianas) escritas em el período compreendido entre el año 200 a.C. y el 220 d.C., obras pretendidamente inspiradas e referidas, ya sea como autor o como interlocutor a un personaje del Antiguo Testamento”. MACHO, Alejandro Diez. Introduccion general a los apocrifos del Antiguo Testamento - Tomo I. Madrid, Ediciones Cristandad, 1984, p.27.

 

 

FONTE:

http://adoradoresdejesus.wordpress.com

http://comandomaior.blogspot.com.br

http://www.igrejavaroesdeguerra.com.br